O código nunca foi escrito tão rápido. E nunca foi tão pouco mantido.
Em 2022, pouco mais de um quinto das linhas alteradas nos repositórios acompanhados pela GitClear era código movido de lugar, o sinal mais direto de que alguém parou para reorganizar o que já existia. Caiu para 13% no ano seguinte. No primeiro semestre de 2026, chegou a 3,8%.
No mesmo período, a duplicação de blocos subiu 81% e alcançou o maior nível já registrado pela empresa: 73 blocos duplicados por milhão de linhas alteradas, contra 40,3 em 2023. Copiar e colar passou de 9,4% para 15,7% das linhas. O reuso, medido por chamadas de função entre arquivos, encolheu 35%. E o trabalho silencioso de mexer em código parado havia mais de um ano caiu 74%, de 1,7% para 0,46% das alterações.
Os dados vêm de commits reais, não de pesquisa de opinião. Eles descrevem bases de código que crescem rápido e são revisitadas cada vez menos.
O que ficou fora da discussão
Desde 2024 o setor gira em torno da mesma pergunta: a IA vai substituir programadores. É uma discussão confortável, porque ninguém precisa fazer nada enquanto ela não se resolve.
Os números da GitClear apontam para um problema que já está acontecendo. A produtividade subiu, e isso ninguém contesta. O que encolheu foram justamente as atividades que determinam se um sistema continua modificável no terceiro ano: refatorar, reaproveitar, voltar em código antigo.
A explicação não está na qualidade dos modelos. Está na economia da coisa.
Refatorar exige entender o que já existe. Reaproveitar exige saber que aquilo existe. Voltar num módulo escrito há dezoito meses por outra pessoa exige tempo e alguma paciência. Quando gerar cem linhas novas leva trinta segundos, o cálculo de cada desenvolvedor, isoladamente, passa a favorecer o código novo. Ninguém está sendo relapso. O caminho mais curto simplesmente mudou de lugar.
O efeito agregado dessas decisões individuais é o que os relatórios mostram.
A segurança que não acompanhou
A Veracode mantém desde 2023 um teste sistemático de código gerado por IA, hoje com mais de 150 modelos avaliados. A atualização de 2026 chegou ao mesmo lugar das anteriores: 55% do código gerado passa nos testes de segurança quando o pedido não inclui instrução explícita sobre isso.
O número não se mexeu em três anos. No mesmo intervalo, a corretude sintática dos modelos saltou de cerca de 50% para mais de 95%. Os modelos aprenderam a escrever código que roda. Não aprenderam a escrever código seguro.
O detalhamento é pior que a média. Em Java, a aprovação é de 29%. Cross-site scripting passa em 15% dos casos, log injection em 13%. São falhas que dependem de enxergar o dado atravessando várias partes do sistema, algo que um modelo gerando um trecho isolado não tem como fazer.
Os dois discursos que os dados contrariam
Quem trata IA como bolha lê esses relatórios como confirmação. Não é o que está escrito neles: a aceleração na escrita é real, foi medida, e não há sinal de reversão.
Quem vende a tecnologia argumenta que é questão de tempo até a próxima geração de modelos resolver. Também não é o que está escrito: a segurança ficou parada por três gerações de modelos enquanto todo o resto evoluiu rápido.
O que os dois discursos ignoram é que a ferramenta acelerou uma etapa e deixou todas as outras onde estavam. Revisão, arquitetura, teste e manutenção seguem no ritmo humano de sempre, com um volume bem maior de código chegando na fila.
O que tem funcionado
As equipes que reagiram a isso fizeram mudanças pouco vistosas.
A primeira foi trocar a métrica. Onde o painel do time mede volume entregue, a IA otimiza volume entregue. Duplicação e cobertura de teste no mesmo lugar que velocidade mudam o comportamento em poucas sprints.
A segunda foi tratar código gerado como contribuição externa. Nenhum time faz merge de PR de desconhecido sem ler com atenção, e é mais ou menos isso que o código de modelo é: alguém que não conhece o sistema propondo uma mudança.
A terceira é quase trivial e quase ninguém faz. Os 55% da Veracode são de geração sem qualquer instrução de segurança. Descrever o modelo de ameaça no pedido melhora o resultado, e custa uma frase.
A quarta é orçamentária. Refatoração e manutenção de legado desapareceram dos números porque desapareceram do planejamento. Não existe time que faça esse trabalho nas brechas.
A conta que vence depois
Sistema raramente morre de uma vez. Ele fica caro devagar, até o custo de mudar qualquer coisa superar o valor de mudar.
Duplicação em máxima histórica, refatoração em 3,8%, reuso em queda e metade do código gerado saindo com alguma falha de segurança formam um quadro que não estoura neste trimestre. Estoura no time que herdar, daqui a dois ou três anos, o que está sendo escrito agora.
Esse time provavelmente vai ser o mesmo. Só que com muito mais código para entender.